Aceitação

Querido filho,

Sinto muita saudade de você. A gente mora perto mas vive longe .

Acho que Deus deve estar cansado de mim pois não me canso de pedir  proteção divina para você .

Quando você escolheu essa profissão confesso que meu mundo veio abaixo e custei muito para compreender.Com o tempo eu descobri que eu não teria que aceitar mas simplesmente estar ao seu lado, não por causa da profissão que escolheu, mas pelo amor que sinto por você e pela chance de aprender ao seu lado

A escolha dessa profissão mexeu com meus conceitos, descobriu meus preconceitos e me faz sentir mesquinha.

Minha vida se transformou e todos os dias eu tenho a chance de refletir sobre minhas atitudes e tentar mudar .

Eu espero, meu filho, que você sempre permita que venha à tona aquilo que existe de positivo em você.

O poder pode nos cegar e ele é efêmero. Seja um trabalhador eficiente mas não se torne um escravo do Estado. Faça a diferença e ande sempre dominado pelo amor, respeito, compaixão e preocupação com os outros

Proteger não é fácil e eu conheço a sua luta .

Nunca esqueça, meu filho, que você tem tudo para fazer a diferença e lutar por justiça e pelo bem comum.

Meu coração de mãe ainda luta para ter a tranquilidade de dizer que eu compreendo sua escolha e torço para que ela me ajude a prender a ser melhor menos preconceituosa e mais amorosa .

Te amo

Com saudades

Sua mãe

SIM ou Não

Queridos filhos,

Hoje comecei a pensar em como é difícil saber quando dizer sim ou não.

Educar é um desafio constante e eu me perco no momento decisivo. Avalio a educação que tive. Eu recebia apenas “não”, para quase tudo. Um não dado sem espaço para questionamento, sem possibilidade de reverter em um sim.

As regras na minha época eram bem claras e impositivas, quase que uma lei vitalícia. Eram regras aprendidas dentro da igreja católica, que tinha o papel de ajudar a educar de forma mais fácil, usando sempre a culpa para que pudéssemos entender e submeter.

A vida fora da família ensina mais do que dentro. Talvez a família seja o espaço dos afetos, do aconchego, o porto seguro, onde a gente pode ser compreendido e perdoado.

Todos os pais deveriam saber que o exemplo é o que fica.

Hoje fiquei confusa, sem saber se no momento o sim seria mais educativo que o não. Abri o coração para uma negociação. Colocamos nossos pontos de vista e tentamos chegar a um  acordo. Parece que conseguimos, mas ai vem aquela angustia lá de dentro do meu ser. Será que eu deveria ter aceitado?

No momento veio o sim mas um não também poderia ser educativo. Quanta indecisão! Tá aí o erro: Dúvidas!!

As dúvidas, elas sim, podem fazer  a gente errar, podem fazer a gente confundir o sim com o não.

Nada é mais doloroso do que a busca pela certeza. A vida é cheia de incertezas!! Quem sabe um não de hoje pode ser um sim amanhã.

Durmo com a dúvida ,educar é um ato de amor sem certezas .

UM beijo grande cheio de amor

o toque

Que corajoso, inspirador e interessante chamá-lo de “Cartas aos Filhos”. É um nome que, à primeira leitura, pode remeter a palavras de sabedoria, de maturidade, de experiência. E mais interessante se essas palavras puderem trazer não somente experiências ditas edificantes mas sim aquelas derrapadas na curva que enfrentamos no passado e que hoje em dia nos provocam risos, tristezas, indignações, reflexões e correções de rumo. Imagino o frio na barriga que seus filhos podem estar tendo ao consultar seu blog – “ai meu Deus, o que será que mamãe vai colocar no ventilador sobre mim?” hehe. Mas quem disse que os tais “filhos” do titulo são necessariamente os seus? Sugiro muito que alterne entre seus próprios filhos, os filhos dos outros, a filha que você própria é, ao filho de Deus, aos filhos de seus avós, até aos filhos da p… profissional da noite, por que não hehe? Vai te dar um leque imenso e liberdade de formas e assuntos, por isso gosto tanto do nome. Eu só não gosto da sonoridade quando se fala tudo junto… fica algo como “cartaZAOSfilhos”, talvez ficasse melhor no singular, mas detalhe do detalhe isso. E abrir com Madona de Rafael ficou deslumbrante, clássico, lindo, lindo.

Ao ver o texto sobre o grito, tive um pouco de dificuldade para entender o sentido diálogo inicial, acho que se tratava de um diálogo eletrônico via chat ou coisa do tipo, certo (para que a resposta do filho faça sentido) ? Talvez adicionar algum breve comentário a esse respeito no começo. É interessante que embora seja uma “carta ao filho”, o texto soe mais como uma “mea culpa” de alerta para os pais. Bem bom que esse caminho já quebre a idéia que o título do blog induz. Bem corajoso quando usa você usa frases afirmativas e diretas como “o grito não é libertador…”. Eu sou do planeta da dúvida, então muito difícil aceitar ou usar frases definitivas (a não ser no contexto de uma história, um narrador ou personagem que não seja eu próprio). Mas a dureza da sua afirmativa é confrontada e atenuada pela compreensão do seu próprio erro ao gritar, então as coisas ficam mais ternas. A carta é ao filho mas é você quem se coloca na berlinda, corajoso de novo isso. A metáfora inteligente (no caso com a árvore) é super bem-vinda, use e abuse sempre nos seus textos.

O texto sobre a aceitação foi o que mais me emocionou. Já ganha qualquer leitor falando de saudade e do incansável pedido de proteção divina para os filhos. Já traz um aconchego, aquela coisa do ninho estar sempre pronto pros filhotes que saíram para outros vôos. Também é de uma elegância em não citar explicitamente a profissão, evitar o reforço do estereótipo. Pelo contrário, embora preocupada com os perigos inerentes da profissão escolhida, procura ressaltar a importância de atuar com base nos princípios éticos e nos valores básicos (que vêm principalmente da educação na primeira infância, no seio da família). E de novo você ressaltando sua luta pela transformação interna para conseguir acolher e aceitar a situação, é de uma dignidade muito clara, simples, direta, sentimentos que encontram ressonância em qualquer universo.

Já o texto da “Escolha”, apesar do tema da “profissão” me chamou a atenção mais pelo que está ao seu redor… o que te move para um estado dito “feliz”, o colorido na luta, a coragem, a confiança e alegria nas escolhas, a revisão/reflexão sobre escolhas e crenças antigas.

Enfim , estou gostando muito, parabéns! Muito bom que essas tecnologias nos permitam uma forma de proximidade de pessoas que tem muito a dizer como você, fico contente. Minha sugestão é que você vá abrindo cada vez mais o leque de possibilidades de texto e submergindo nas reflexões, como quem abre gradualmente um baú vasto da alma e vai afundando a mão pra ver o que pega logo na superfície, depois afunda o braço inteiro, acha algo mais interessante… daí a curiosidade leva a colocar a cabeça, depois o peito até atingir o coração, desce as pernas, pede pra alguém segurar o pé, daqui a pouco se vê solta até quem sabe as coisas, as cartas, as letras, as pessoas e os filhos ao redor já se misturem tanto consigo própria que vire tudo mesmo uma coisa só !

Bjos

Escolha

Filha querida,

Hoje é domingo e eu acordei cedo com uma sensação estranha de ter feito algo errado.

Depois dos 50 anos a gente deixa de dar importância para muitas coisas e começa a dar a outras. Às vezes sinto que perdi tempo, perdi coisas que hoje são impossíveis de serem resgatadas.

Meu estado de ânimo é o termômetro que rege minha vida .

Tenho que matar um leão para conseguir ver as outras coisas, aquelas que foram acertadas e que me fizeram permanecer vivendo, construindo e sendo feliz.

Você vive o momento difícil da escolha de sua profissão, sei que é complicado mas acredito no seu talento e determinação e torço para que possa buscar o caminho que te faz feliz. Engraçado, que antes eu pensava que deveríamos buscar apenas aquele caminho da pseudo felicidade, hoje mudei e tenho claro que a sobrevivência vem aliada ao bem estar .

O mundo é muito confuso e sei bem o que é ter que lutar pela sobrevivência. Ao mesmo tempo, penso que a luta dá um certo colorido à vida e, pra falar a verdade, eu acordo pintando tudo o que vejo.

Filha, eu espero que tenha sempre muita confiança na vida e que consiga fazer escolhas boas. Que você tenha coragem, confiança e siga em frente com a alegria de menina que vejo em você. Conserve sempre a gargalhada e cante muito pois ai reside o que eu chamo de…

ALEGRIA .

Um beijo grande de sua Mãe

O grito

Querido filho,

Espero que tudo esteja bem e que você tenha um dia pleno, apesar da secura que deve estar ai.

Acordei pensando na nossa conversa:

– FILHO? ???????TÁ AI,FILHO?

– Estou mãe,não precisa gritar que eu não vou ouvir .

Era mesmo um grito, te chamar e você me responder imediatamente . O grito que aprendi a dar quando criança para conseguir algo das empregadas ou da mãe que calmamente acolhia a todos mas num tempo diferente de minha ansiedade .

Se os pais soubessem não gritariam com seus filhos . Deveria ser proibido aos pais falar alto ou gritar pois depois de adquirir o hábito fica difícil mudar e o grito vem como que arrancasse da alma, do fundo do peito, o alivio necessário, a libertação quando é o contrário .

O grito não é libertador quando é usado para impor regras ou desabafar.

Deixemos o grito para os momentos de pura alegria quando um filho faz um concurso e passa no primeiro lugar.

Com você acabei de aprender sobre o grito e agora exercito gritando minha alegria e usando a tecla caps lock apenas quando necessária.

Quanto aos gritos, estes são como raízes .Quanto mais a árvore  cresce mais profunda as raízes ficam.

Vou tentar fazer uma poda constante.

Te amo muito!

Um beijo cheio de muita saudade

Sua mãe